Como convencer o cliente de que seu carro é bom: o JAC J3 Turin de 90.000 km

Quando você sabe qual é seu calcanhar de Aquiles, é aconselhável que você cuide dele logo que possível. Mas poucas marcas devem ter feito isso de forma tão competente quanto a JAC Motors tem feito no Brasil. Neste mercado, bem como em muitos outros em que carros chineses são vendidos, eles têm a fama de ser pouco confiáveis e inseguros. O medo, depois de comprar um por um preço muito razoável, ou mesmo por uma pechincha, é a desvalorização que carros considerados descartáveis podem trazer. A JAC Motors abordou esta má fama criando uma frota de carros que estão quase atingindo 100.000 km. E nos entregaram um deles, um J3 Turin de 90.000 km.

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Eduardo Pincigher, o assessor de imprensa por trás dessa estratégia, vem de uma longa experiência auxiliando Volkswagen, Mercedes-Benz e também de ser ele mesmo um jornalista automotivo. É ele que me entrega as chaves do carro, avisando-me do que eu encontraria ao volante. “Esse carro era de um cliente de Santo André. Ele o trocou por outro JAC, novo. Nossa única preocupação era que os carros tivessem passado por todas as revisões que a JAC estabelece e que nunca tivessem sofrido acidentes graves”, ele disse ao MotorChase. “Você vai notar que é como qualquer outro carro com quase 100.000 km no hodômetro. Os amortecedores ainda são bons, mas podem precisar de uma substituição em 10.000 km ou menos. E a embreagem está no fim, também.”

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Os sinais de uso são mais do que evidentes. A chave não tinha os desenhos indicando qual botão abria ou qual fechava as portas, então tivemos que descobrir quem era quem. Os tapetinhos, de tecido, estavam gastos, assim como o volante, e os assentos de couro apresentaram trincas muito pequenas, mas visíveis. Ficou claro que o carro foi bem cuidado: seus acabamentos de plásticos duros apresentavam poucos arranhões. Mas eles também estavam lá para indicar que este carro já tem um longo histórico de serviços prestados.

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O J3 Turin foi um dos primeiros modelos importados pela JAC para o Brasil. Ele tem 4,16 m de comprimento, 1,65 m de largura, 1,47 m de altura e tem uma distância entre eixos de 2,40 m e um porta-malas de 490 l. Ele pesa 1.100 kg e é alimentado por um motor 1.3 de 4 cilindros que entrega 79 kW (108 cv) a 6.000 rpm e 138 Nm a 4.500 rpm.

Desde o início, a marca chinesa destacou que tinha fornecedores globais, tais como Bosch, Delphi, Continental e assim por diante. Isso foi uma tentativa de passe livre diante de outras marcas chinesas que também estavam tentando se estabelecer no mercado brasileiro. Os carros da JAC eram construídos com peças de fornecedores familiares, os mesmos que ajudam a construir automóveis Fiat, Volkswagen, Ford e Chevrolet. Mas será que eles se comportariam em veículos da JAC da mesma forma que se comportam em carros de fabricantes já bem estabelecidas?

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Depois de uma semana indo para cima e para baixo com este JAC J3 Turin, somos capazes de dizer que “sim”. O J3 Turin não está desmanchando depois de seus 90.000 km nas estradas e ruas brasileiras feitas de asfalto Sonrisal. Na verdade, ele até pareceu mais composto do que muitos modelos construídos no Brasil, sem nenhum ruído excessivo proveniente de peças plásticas e sem rangidos de seu corpo cansado. Tirando as partes desgastadas, a embreagem (que nos deixou na mão em uma subida íngreme) e o retrovisor do motorista, cujo espelho encontramos no chão (não temos certeza se ele se soltou ou se alguém o arrancou), ele não pareceu diferente de qualquer carro de 90.000 km. De qualquer marca.

Seja como for, o mercado de carros usados ainda não vê os JAC dessa forma. Eles estão entre os que mais desvalorizam ao longo de um ano de uso, como a revista Exame mostrou em um artigo de outubro de 2015. A fama de pouca confiabilidade dos carros chineses não é a única coisa com que a JAC deve se preocupar. O fato de que seus carros são importados também representa um receio para os clientes, especialmente quando o governo brasileiro tenta fazer as vendas de importados cada vez mais difíceis. As peças de reposição sofrem com isso, assim como com a depreciação da moeda brasileira. Há muitos calcanhares de Aquiles para endereçar. Mas pelo menos a JAC Motors demonstra que os conhece. E que enfrenta os que estão a seu alcance. Muito bem, senhores: você têm nossos cumprimentos. E desculpem-nos pelo espelho do retrovisor!

Gustavo Henrique Ruffo

I have been an automotive journalist since 1998 and have worked for many important Brazilian newspapers and magazines, such as the local edition of Car and Driver and Quatro Rodas, Brazilian's biggest car magazine. I have also worked for foreign websites, such as World Car Fans and won a few journalism prizes, among them three SAE Journalism Awards and the 2017 IAM RoadSmart Safety Award. I am the author of "The Traffic Cholesterol", a book about bad drivers that you can buy at Hotmart, Google Play, Amazon and Kobo.