Fiat Mobi é um carro de alto padrão em um segmento sensível a preço: dirigido e avaliado

O MotorChase teve a oportunidade de dirigir e avaliar o novo Fiat Mobi, apresentado em 13 de abril de 2016 em São Paulo, uma das maiores cidades do mundo. Sua população de 11,32 milhões de habitantes tem uma frota de carros que atinge 8,21 milhões de unidades. Isto dá à metrópole uma proporção de um carro para cada 1,4 habitante, uma enorme quantidade de veículos. Ou seja, é o tipo de público que o Mobi vai tentar seduzir: moradores de cidades cheias com vagas disputadas. E ele atenderia bem essas demandas se São Paulo não fosse habitada por brasileiros (US$ 11.727 de PIB per capita), afetados por um poder aquisitivo notoriamente baixo. A Fiat escolheu fazer do Mobi um carro de alto padrão em um segmento de preço muito sensível. E é isto que provavelmente vai restringir suas vendas e seu alcance.

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Como já dissemos aos nossos leitores, o Mobi tem 3,57 m de comprimento, 1,63 m de largura, 1,49 m de altura e uma distância entre eixos de apenas 2,31 m. Mas custa R$ 31.900 na sua versão mais barata. Esse tanto de dinheiro equivale a US$ 9.000 ou a € 8.000. Enquanto não compra nada além de um carro usado nos EUA, essa quantia permite que um Europeu (US$ 30.240 de PIB per capita) compre um Dacia Sandero novinho em folha. Um europeu poderia escolher o Mobi como um segundo carro. A maioria dos brasileiros não podem fazer o mesmo: o carro que eles compram será o transporte de sua família. E ponto final. No caso de você ter que levar sua família, qual carro você preferiria: um Mobi ou um Sandero?

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A Fiat deveria ter aprendido com a experiência da Volkswagen com o up!, principal concorrente do Mobi no Brasil. Ele é mais caro que o “Uno miniatura”, comercializado a R$ 34.890 em sua versão de 5 portas (o Mobi é vendido apenas com 5 portas), mas também é mais espaçoso (3,61 m de comprimento e uma distância entre eixos de 2,42 m). Foi apresentado em fevereiro de 2014 no Brasil e ainda vende mal. Ainda que seja um dos mais seguros do Brasil, com 5 estrelas no Latin NCAP, o up! é considerado um carro pequeno e caro. A mesma descrição do novo Fiat Mobi devidamente receberá.

Este é o anúncio que será veiculado em TVs e no Youtube de agora em diante. Os executivos da Fiat têm sido claros sobre qual é o público-alvo deste carro: jovens. Os que se identificariam com a canção “I Like to Move It, Move It” da animação Madagascar. Os mesmos que estão enfrentando dificuldade em encontrar um emprego e ganhar a vida na crise econômica brasileira atual. Mas a Fiat os vê como formadores de opinião. Pode ser por isso que a montadora italiana encheu o evento de blogueiros e youtubers: para tentar fazer o Mobi parece um carro descolado. A Volkswagen também tinha como alvo o público jovem para o up! brasileiro. E não deu certo. Por que não dar ao Mobi um caráter diferente com esse intervalo de 2 anos a mais na apresentação?

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Uma pista que tivemos foi o bom acabamento de Mobi. Ao contrário da maioria dos veículos Fiat até a apresentação da picape Toro, os plásticos não apresentam rebarbas, os painéis de carroceria têm vãos uniformes e há poucas partes da carroceria expostas dentro da cabine. Você não ouve o combustível se movendo dentro das paredes do tanque, como outros carros brasileiros maiores e mais caros, por causa de um bom isolamento acústico. Esses cuidados podem custar mais do que um veículo de R$ 25.000 (US$ 7.000 ou € 6.300) seria capaz de ostentar. Mas, ao mesmo tempo, o Mobi mais barato não oferece nada além do básico: rodas, bancos, motor e volante.

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O resto é opcional. Carros chineses conseguiram atrair clientes no Brasil com modelos totalmente equipados vendidos a muito menos do que isso. A segunda geração do Chery QQ, aproximadamente do mesmo tamanho do Mobi, custa R$ 28.790 e oferece ar-condicionado, vidros elétricos dianteiros, direção hidráulica e um rádio. E um motor mais moderno.

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Enquanto o QQ usa um 1.0 de 3 cilindros que entrega 51 kW (69 cv), o Mobi é alimentado por um motor 1.0 Fire de 4 cilindros que produz 55 kW (75 cv) com etanol e 54 kW (73 cv) com gasolina a 6.250 rpm, com um torque respectivamente de 97 Nm ou 93 Nm a 3.850 rpm. O Mobi receberá o motor 1.0 de 3 cilindros GSE no próximo ano, mas foi lançado com um motor que Fiat mantém na prateleira por mais de uma década. Com um baixo peso de apenas 907 kg (contra 936 kg do Chery QQ), o Mobi supostamente tem um desempenho melhor. Nós teríamos que compará-los para ter certeza sobre isso.

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Convenientemente, a Fiat não ofereceu a versão de 907 kg mais do que básica do Mobi para nossa avaliação. As versões Easy e Easy On serão mantidas fora da vista de imprensa por um tempo. Apenas os clientes serão capazes de saber como elas são em 16 de abril, quando começam as vendas. As versões disponíveis para a avaliação era apenas a Like, a Like On, a Way e a Way On. As versões Way têm um vão livre maior e 1,55 m de altura. Subimos em uma Like On e em uma Way On para ver como o carro se comporta. O test drives partiu do Hotel Hilton, em São Paulo, em um dia quente. Isso nos deu uma carona indesejada: o cheiro desagradável que emana do Rio Pinheiros, um esgoto aberto que atravessa a cidade quase inteiramente. Uma boa oportunidade para testar o ar-condicionado do Mobi e a eficiência de sua recirculação de ar.

 

Like On

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Nosso primeiro contato com o interior de Mobi nos deu a impressão de um carro de alto padrão que já informamos, mas também escancarou o quanto ele é apertado. A única chance de você não sentir isso será se você  não passar de 1,60 m. Um motorista de 1,85 m não terá espaço suficiente para as pernas… a menos que ajuste o assento para a posição mais alta possível. Se você fizer isso, você não será capaz de enxergar os semáforos a menos que abaixe a cabeça toda vez que chegar perto de um. Haveria espaço para jogar os bancos da frente mais para trás, mas a Fiat optou por não lhes dar trilhos suficientemente longos para chegar lá. Nosso amigo Henrique Rodriguez, do site Primeira Marcha, nos informa que há um limitador removível para os trilhos dos bancos dianteiros. Perdemos a chance de conferir, mas duvidamos que isso resolva a questão da falta de espaço. Se o motorista ficar mais confortável, ninguém poderá se sentar atrás dele. Com o limitador no lugar, já não tem muito nem para as pernas nem para a cabeça. Mesmo com pontos H altos nas duas fileiras de bancos, é claro que o carro não tem espaço devido a seu entre-eixos curtíssimo.

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Ligamos o Mobi e há muito pouco barulho, algo que reforça nosso sentimento sobre a boa construção do carro. As suspensões são suaves o suficiente para não incomodar os passageiros em asfalto ruim, muito comum em São Paulo, mas também firmes o suficiente para o carro para não dar qualquer sensação de insegurança. A carroceria não rola como modelos anteriores da Fiat costumavam fazer, mas a curta distância entre eixos faz os pneus gritarem facilmente em curvas fechadas.

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Enquanto dirigi, tive a má impressão de que meus joelhos ficavam muito próximos do painel. E de que eles bateriam forte contra ele em uma frenagem forte. A Fiat afirmou que o Mobi foi desenvolvido para ganhar 4 estrelas no Latin NCAP. Por que não mirar nas 5 estrelas, de uma vez? Estou tanto ansioso quanto preocupado com esses testes. Quando meu pé esquerdo saía da embreagem, ele continuava batendo no apoio de braço da porta.

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Em uma viagem longa, é muito provável que isso incomode bastante. Por outro lado, foi o que chamou minha atenção para a boa ergonomia do carro. Veja onde estão os comandos elétricos dos espelhos retrovisores: completamente à mão. Se a Renault não aprender como fazer algo parecido, como nos mostrou com o Duster Oroch, o Kwid está em sério risco de oferecer pouco conforto ao motorista.

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Preste atenção ao painel de instrumentos e ao sistema de som. A caixa redonda em que o velocímetro está inserido nos lembra aquela usada pelo Fiat 500, enquanto o rádio é elegante e fácil de usar. Sinceramente, não vemos por que alguém iria escolher o sistema Live On em vez deste. Ele apresenta alguns dos seus comandos no volante, o que ajuda o motorista a não desviar sua atenção da pista. A única coisa que mudaríamos é o ajuste de coluna do volante. Ela permite apenas que você decida a que altura ela deve ficar, não a distância.

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O pedal de freio é progressivo, com peso adequado, sem nenhuma assistência excessiva. O 1.0 Fire, ao mesmo tempo em que é suficiente para o carro, não inspira nenhum uso esportivo. Temos que avaliá-lo com os passageiros para ver como ele se comporta carregado, mas isso não foi possível nesta oportunidade. Com o motorista e apenas com ele, a falta de força se manifesta principalmente em subidas.

A visibilidade é boa, com grandes espelhos retrovisores, mas as portas estreitas, a coluna B em seus ombros e a larga coluna C dificultam ainda mais tentar ver se há alguém no seu ponto cego vindo por trás. No porta-malas alto e estreito, a cargo box, que a Fiat diz que ajuda a organizar mercadorias, está solto e é difícil de operar. Não aconselhamos ninguém a comprá-lo como um opcional. Nem a usá-lo se ele vier como equipamento de série. O estepe fica localizado abaixo do cargo box, parcialmente sob o banco traseiro. Não tentamos retirá-lo, mas não deve ser uma tarefa das mais simples.

 

Way On

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O Mobi mais alto parece mais robusto, com molduras de plástico ao redor dos arcos de roda e apresenta pára-choques dianteiro e traseiro diferentes. Os pneus não mudam em relação aos usados na versão Like On (175/65 R14) e o velocímetro tem grafismo diferente. Isso é praticamente tudo que há de diferente nele. Só nos perguntamos o que faz ele custar R$ 43.800 (equivalente a US$ 12.400 ou a 11.000 €).

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Foi nele que percebemos que as telas do rádio e do painel de instrumento refletem muita luz em dias ensolarados. E isso torna mais difícil verificar as informações que estão por ali. De qualquer forma, também foi dirigindo o Mobi Way On que percebemos que a tela central do velocímetro, que mostra as informações do computador de bordo, tem uma indicação de mudança de marcha, uma espécie de shift light. Bem ao lado do relógio, quando ele aparece.

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Ao obedecê-lo, nos demos conta de que engrenar a 5ª marcha não era uma operação tranquila. Sempre que o fizemos, parecia haver algo quebrado, fazendo barulho. As trocas não foram prejudicadas, mas ficamos com medo de o carro apresentar algum problema mecânico. Embora isso possa ser um problema exclusivo da unidade avaliada, vale a pena relatá-lo no caso de alguém enfrentar problema parecido no futuro.

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A principal vantagem das versões Way é não se preocupar em beijar o chão em lugares onde até senhoras de SUV ficam com receio de danificar os para-choques de seus carros (elas ficam diante de qualquer obstáculo, cá entre nós). Mas mesmo o Mobi comum tem uma suspensão alta e muito pouco risco desse tipo de problema, então, escolher o Way em vez de qualquer outra versão é mais uma questão de gosto do que qualquer outra coisa.

A Fiat disse que não quer mais ser vista como a empresa que vende os carros mais baratos do Brasil. Faz um tempo que ela perdeu este posto: desde que as marcas chinesas começaram a vender carros no Brasil. De qualquer forma, há um enorme risco de que Fiat comece a ser considerada como a empresa que costumava vender mais carros no Brasil, mas que não chega mais lá. Mesmo se tudo que ela vender tiver uma margem de lucro muito maior. Esta pode ser missão do Mobi, mesmo que ele não a cumpra inteiramente. A menos que ganhe mais equipamentos em sua versão básica ou que tenha uma redução de preço expressiva, ele será mais difícil de vender do que qualquer outro carro da Fiat.

Gustavo Henrique Ruffo

I have been an automotive journalist since 1998 and have worked for many important Brazilian newspapers and magazines, such as the local edition of Car and Driver and Quatro Rodas, Brazilian's biggest car magazine. I have also worked for foreign websites, such as World Car Fans and won a few journalism prizes, among them three SAE Journalism Awards and the 2017 IAM RoadSmart Safety Award. I am the author of "The Traffic Cholesterol", a book about bad drivers that you can buy at Hotmart, Google Play, Amazon and Kobo.