Nissan Kicks chega com leveza, equipamentos e baixo consumo: dirigido e avaliado

A Nissan fez ontem sua primeira apresentação mundial no Brasil, mais especificamente em São Paulo. Devido a razões de embargo, só pudemos trazer nossas impressões ao dirigir o Kicks hoje. E, sob uma perspectiva mundial, o novo crossover do segmento B da Nissan pode levantar algumas questões. Afinal de contas, a Nissan já tem um modelo neste segmento, o Juke. Mas ele nunca foi vendido no Brasil nem em outros mercados importantes. Primeiro, por causa de sua aparência não convencional, considerada feia na maior parte das vezes. Em segundo lugar, por causa de seu interior apertado. E, por fim, por causa de seu preço. O Kicks resolve alguns destes problemas.

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Construído sobre a plataforma V, em vez da plataforma B usada pelo Juke, os Kicks é extremamente leve. A versão que tivemos a oportunidade de dirigir, a SL, topo de linha, pesa 1.142 kg. E provavelmente será o Kicks mais pesado à venda. O Juke mais leve pesa 1.321 kg, enquanto a versão totalmente equipada pesa 1.456 kg. Ou 314 kg a mais. Esta vantagem competitiva faz o Kicks ser o crossover mais econômicos à venda no Brasil, com um consumo de 7,14 l/100 km em estrada e 9,09 l/100 km em ciclo urbano com gasolina. Como todos os carros de alto volume são vendidos no Brasil com motor flex, os números com o combustível renovável são de 10,42 l/100 km no ciclo da estrada e 12,35 l/100 km em uso urbano. Números muito bons para um crossover.

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O Nissan Kicks tem 4,30 m de comprimento, 1,76 m de largura, 1,59 m de altura e 2,61 m de distância entre eixos. Só para manter a comparação dentro de casa, o Juke tem 4,13 m de comprimento, 1,77 m de largura, 1,57 m de altura e uma distância entre eixos de 2,53 m. Seu principal concorrente no Brasil, o Honda HR-V, tem uma semelhança incrível com o Kicks em termos de dimensões. A maioria delas é igual a não ser por largura (1,77 m para o Honda) e peso (1.276 kg para sua versão de topo, a EXL). Até o porta-malas é semelhante: a Honda diz que o HR-V pode transportar 431 l de bagagem, enquanto o Kicks transporta 432 l.

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Os 2,61 m de distância entre eixos poderiam garantir um interior generoso, se pegarmos o Nissan Versa como exemplo. Os dois dividem a plataforma V. O sedã é um dos carros mais impressionantes do segmento B no que diz respeito à oferta de espaço. Além disso, o Kicks tem a vantagem de um ponto H mais elevado, ou de uma posição de assento mais elevada, se você preferir. Isso também economiza espaço, além de ser uma característica que fãs de crossovers e de SUVs adoram.

Uma das desvantagens deste tipo de veículo é um consumo de combustível pior devido a um maior coeficiente aerodinâmico e de uma área frontal maior. A Nissan diz que o Kicks tem um coeficiente de arrasto de 0,34 (ela não informou a área frontal) e aponta para uma grande preocupação com a aerodinâmica. Há aspectos do design do carro que tinha isso em mente, tais como as barbatanas na parte superior dos faróis e a superfície da coluna C, especialmente criada para diminuir a turbulência. A Nissan também afirma que isso ajuda o carro a ser menos propenso a ruídos e que ela deu atenção cuidadosa ao isolamento contra ruídos de vento. Estamos prestes a compartilhar com vocês nossas impressões sobre isso.

O carro terá 6 opções de cor: Preto Premium (sólida), Prata Classic (metálica), Cinza Grafite (metálica), Cinza Grafite com teto Sunset Orange, Cinza Rust (marrom metálica) e Branco Diamond (perolizada). Existem 3 opções de interior: preto, macchiato (marrom) e sand (bege). Só carros pretos e marrons terão o interior sand. O macchiato será exclusivo para grafite (com teto laranja ou não) e branco. O interior preto será oferecido por todas as cores de carroceria exceto a marrom.

 

O conteúdo (e o preço) da versão SL

O novo Kicks tentará apelar aos clientes com seu estilo de “geometria emocional”, mas não só isso. Mesmo porque a grade “V motion”, a onda sônica (uma linha lateral), o teto flutuante e a assinatura de bumerangue das lanternas são apenas uma maneira que a Nissan encontrado para ter mais personalidade. A marca aposta basicamente no conteúdo para destacar seu novo crossover da multidão de competidores. E no conteúdo da versão SL.

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Todos os Kicks serão equipados com um motor HR16 1.6 que oferece 84 kW (114 cv, tanto com etanol ou gasolina) a 5.600 rpm e 152 Nm a 4.000 rpm. A velocidade máxima é de 175 km/h e ele acelera de 0 a 100 km/h em 12 s. Principalmente devido à única transmissão disponível até agora, a XTRONIC CVT.

Começando pelo painel de instrumentos, o Kicks SL apresentará uma tela TFT de 7 polegadas no lugar do conta-giros. A Nissan a chama de painel multifuncional colorido. Ela apresenta 12 modos selecionáveis. É possível mostrar uma bússola, o conta-giros, dicas de navegação, o controle do chassi e as funções do computador de bordo, tais como o consumo de combustível.

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Isso seria uma primazia em carros do segmento B, de acordo com a Nissan. Além disso, o Kicks SL apresenta o Camera 360, um recurso que mostra os arredores do carro e detecta objetos em movimento. Eles aparecem na tela multitouch de 7 polegadas do novo sistema de infoentretenimento que vem na parte superior do console central. Logo acima do elegante sistema de controle do ar-condicionado. O Camera 360 funciona com a ajuda de 4 câmeras: uma dentro do emblema Nissan na grade dianteira, uma em cada espelho retrovisor lateral e uma acima da placa do carro.

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A versão SL também apresenta o controle ativo de chassi, o controle dinâmico em curvas e o estabilizador ativo de carroceria. Estes sistemas são associados ao ABS, que freio rodas específicas para que o crossover tenha um comportamento dinâmico mais previsível. Estes sistemas não excluem o VDC (controle dinâmico do veículo) e o TCS (sistema de controle de tração) que já são conhecido no Sentra. Nenhum outro produto de segmento B da Nissan no Brasil, tais como Versa ou March, apresenta esses recursos. E duvidamos que versões mais baratas do crossover também o ofereçam, quando surgirem.

O Kicks SL vai custar R$ 89.990 no Brasil. Em dólares, isso equivale a US$ 27.435. Isto é cerca de US$ 1.200 mais barato do que um Nissan Rogue SL nos EUA, um crossover médio. O Juke custa US$ 20.250. Mas não se preocupe caso você vive no México, EUA ou Canadá. O Kicks custará muito menos em seus mercados devido a impostos menores e margens de lucro menos gulosas. Ele será um SUV de entrada, até mais barato do que o Juke. Brasileiros podem ter a esperança de versões mais baratas, com bem menos itens de série.

Uma questão de manufatura

O Kicks só será vendido inicialmente na versão SL. A série especial de 1.000 unidades para os Jogos Olímpicos já se esgotou. Mas você poderá argumentar que um carro assim já deveria oferecer todas as suas versões desde o início. E você estaria correto se não fosse por uma questão de manufatura. Todas as unidades do Nissan Kicks estão atualmente sendo produzidas em Aguascalientes, no México. A produção brasileira do crossover só começará no final de 2016. Suas vendas começarão em 5 de agosto, ou pelo menos 3 à frente do início da produção nacional. A explicação para isso foi a pressa na decisão de ter um novo crossover do segmento B no Brasil.

Fomos informados de que Nissan não estava convencida da necessidade de um produto assim até apresentar o Kicks Concept no Salão do Automóvel, em São Paulo. Ele foi considerado pelo público como o segundo melhor carro de todo o salão, só um pouco atrás do Jeep Renegade, que já era um carro de produção. Isso fez o comando da Nissan perceber que poderia ter um ótimo produto para aumentar sua participação no mercado brasileiro. Então eles decidiram prepará-lo o mais rápido possível.

A planta de Resende começou a produção em abril de 2014. Seria necessário um investimento adicional e a formação de mais operários a fim de preparar o Kicks para o lançamento nos Jogos Olímpicos do Rio, patrocinados pela Nissan. Aguascalientes seria capaz de produzi-lo mais cedo, ainda que em um número relativamente pequeno. Um negócio que o acordo comercial de importação de carros entre Brasil e México permitiria a preços competitivos, ainda que com uma restrição de volume. Ela impediria a venda de versões mais baratas na quantidade esperada pela Nissan.

Quando a produção do Kicks em Resende começar, será possível trazer as demais versões do crossover sem restrições. E Aguascalientes será capaz de fornecer o novo crossover aos mercados mexicano, americano e canadense. O Kicks será colocado à venda em 80 países. As Olimpíadas serão uma vitrine e tanto para todos eles. E até mesmo para avaliar o potencial do crossover em outros mercados.

 

Impressões de condução

Tivemos uma experiência de condução bastante longa com o Kicks SL. Nós o dirigimos do Hotel Unique, em São Paulo, até o Hotel Fasano Boa Vista, em Porto Feliz. Foi uma viagem de cerca de 120 km ao longo de estradas excepcionalmente planas para os padrões brasileiros. Isso nos impediu de experimentar como o carro se comporta em pista ruim, algo que os engenheiros da Nissan chamam de “colcha de retalhos”. Algo muito comum no Brasil, mesmo que nos refiramos ao fenômeno de uma forma muito menos elegante.

O Kicks tem uma posição de dirigir alta, não importa o que você faça. Tentei colocar o banco do motorista um pouco mais baixo, para que o cinto do carro passasse pela posição ideal, entre meu pescoço e meu ombro esquerdo, mas não foi possível. A outra opção seria elevar a fixação do cinto de segurança na coluna B, mas ela não podia ir mais alto. Então eu dirigi o Kicks com o cinto por cima do meu ombro.

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Os assentos são muito confortáveis, ao contrário dos utilizados pelo Versa, que têm bases curtas e fornecem um apoio para as coxas muito pobre. A Nissan fez estes bancos com a tecnologia Zero Gravity, com uma espuma especial desenvolvida pela Nasa que forneceria a melhor posição para a coluna. Sentimos que os bancos também fornecem bom apoio lateral.

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Mas eles cobram um preço quanto ao espaço oferecido no banco de trás. Quando você ajusta o banco da frente para um motorista com 1,85 m de altura, uma pessoa do mesmo tamanho esfrega de joelhos em seu encosto. No Versa, este passageiro poderia cruzar as pernas e ainda assim não alcançar o banco da frente. O assento traseiro também apresenta um apoio para as costas curto, provavelmente para preservar a visibilidade traseira. Se você se sentar ali sem ajustar o apoio de cabeça, não se sentirá muito à vontade com ele batendo nas costas. E isto provavelmente acontece de propósito.

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A partida do motor é dada com a ajuda de um botão colocado ao lado do seletor de marchas. Graças à i-Key, um “sistema sem chave”. Se você prestar a devida atenção à alavanca, verá que tem um pequeno botão bem abaixo da parte preta da manopla. É ele que você deve pressionar para ativar o modo Sport do CVT. Nós não o tínhamos visto quando começamos a dirigir. Depois que o vimos, ele se provou difícil de acionar. Quando o empurramos, ele só deixou o carro mais ruidoso. Há um atraso quando você pressiona o kick-down, esteja o modo Sport selecionado ou não. O CVT da Nissan faz par perfeito com o motor 2.0, mas parece que não gostar muito do 1.6.

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A coluna de direção pode ser ajustada em distância e altura e não é difícil encontrar a melhor visão do painel de instrumentos. O volante tem base plana, item que sugere uma esportividade que só um motor maior poderia oferecer. Ou um turbinado. Existem controles em seus raios para a tela TFT de 7 polegadas e também para o sistema de som e para a conexão Bluetooth com seu celular.

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Assim que colocamos o carro para andar, percebemos que os pedais do acelerador e do freio são muito próximos um do outro. Se você dirige um carro automático com ambos os pés, vai descobrir que os pedais tornam isso um pouco desconfortável. Os espelhos retrovisores laterais são similares em tamanho aos usados pelo Versa e pelo March. Em outras palavras, são menores do que gostaríamos que fossem.

No curto caminho até a estrada, o Kicks provou ser uma companhia muito agradável no trânsito da cidade. Ele é ágil, compacto e muito fácil de estacionar. Especialmente devido a seu diâmetro de giro de apenas 10,2 m. É a estrada que mostra suas deficiências.

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Mesmo sendo um crossover bem equipado, com um interior elegante, o Kicks não tem controlador de velocidade. E ele faz muita falta nas longas e chatas retas que tivemos que cruzar com ele. Não tivemos chance de testá-lo em curvas apertadas. As poucas que pegamos mostram que ele tem uma configuração que privilegia conforto a estabilidade. E é uma decisão correta. Os clientes principais do crossover serão mães carregando seus filhos e outros clientes que preferem um veículo macio a um carro esportivo.

Esses também são os caras que estão fazendo fila para comprar Honda HR-V, Jeep Renegade e seus concorrentes. O HR-V pode custar até R$ 99.200, ou R$ 10.000 a mais do que o Kicks. Com muito menos conteúdo. Mesmo que o novo Nissan seja caro, ele é mais barato do que a concorrência. A Nissan deve estar ansiosa para começar a vendê-lo em 5 de agosto. E em outros países. O Kicks promete ser um chute nos documentos dos seus oponentes.

Gustavo Henrique Ruffo

I have been an automotive journalist since 1998 and have worked for many important Brazilian newspapers and magazines, such as the local edition of Car and Driver and Quatro Rodas, Brazilian's biggest car magazine. I have also worked for foreign websites, such as World Car Fans and won a few journalism prizes, among them three SAE Journalism Awards and the 2017 IAM RoadSmart Safety Award. I am the author of "The Traffic Cholesterol", a book about bad drivers that you can buy at Hotmart, Google Play, Amazon and Kobo.