Vidas de segunda classe – Você quer mesmo um carro mais seguro?

A apresentação do Fiat Uno 2017 não nos trouxe apenas uma nova família de motores, a GSE. Também trouxe uma reflexão fundamental sobre segurança que ficaria restrita àqueles que assistiram a apresentação se não a trouxéssemos até aqui. E que pode ter ainda mais alcance se o jornalista Boris Feldman decidir levar sua pergunta pertinente mais além do que a coletiva de imprensa em que ele a fez. Já vamos falar nela, mas seu aspecto mais importante é uma discussão antiga para os leitores do MotorChase: vidas de segunda classe.

Chegamos a esta expressão depois de ver os carros de países em desenvolvimento ou pobres e como eles se saem mal quando se trata de segurança. Mesmo que eles sejam vendidos com os mesmos nomes e a mesma aparência que eles têm nos países desenvolvidos. Pensávamos que já tínhamos coberto o problema de uma forma muito extensa até Feldman disparar sua pergunta aos principais executivos da FCA no Brasil: Stefan Ketter (CEO), Carlos Eugênio Dutra (diretor de produto e responsável pela marca Fiat) e Aldo Marangoni (diretor de engenharia de powertrain).

uno_attractive_2

Feldman perguntou por que o Fiat Uno 2017 não tem Isofix. E ilustrou a questão com 2 fatos. O primeiro é que o Fiat Mobi, recentemente apresentado no Brasil e produzido até agora só aqui, foi apresentado na Argentina com os ganchos para assentos infantis, como você pode ver em sua ficha técnica. O segundo é um acidente em que uma criança foi jogada para fora de um Fiat Uno e morreu porque a cadeirinha se soltou. Tentamos localizar o exato acidente ao qual Feldman fez referência, mas encontramos 4 com as mesmas características sem esforço. Desistimos na busca: todas as crianças mortas provavelmente teriam se beneficiado do Isofix.

carlos_eugenio_dutra

Dutra aceitou o difícil trabalho de responder o que poderia ser quase inexplicável. Por que a Fiat é capaz de exportar um Mobi com Isofix e não de vendê-lo no país onde o carro é produzido? É importante salientar que a Argentina exige Isofix em todos os carros vendidos lá, então a Fiat tem de disponibilizá-lo em todos os carros que pretende vender no mercado argentino. Mas, se você já teve o difícil trabalho de implantar o sistema em um carro que você produz, por que não oferecê-lo como padrão?

O executivo não enrolou para responder. “É difícil responder a uma pergunta tão dramática, Boris, mas colocaremos isso de uma forma muito direta. Nós não vendemos esses carros no Brasil porque o cliente brasileiro não se importa com isso. Apenas 2 cadeiras de criança vendidas no Brasil têm preparação para Isofix. E elas são muito caras. Se tivéssemos Isofix no Mobi ou no Uno, os clientes não comprariam a cadeirinha certa. Sem ela, os ganchos Isofx são inúteis. Não tenha dúvida de que venderíamos carros com Isofix se os clientes os quisessem”, disse Dutra.

Você pode achá-lo um cínico, mas tente passar meia hora no trânsito brasileiro, prestando atenção aos outros carros ao seu redor. As crianças viajam totalmente soltas, mesmo diante de uma lei que proíbe isso. Não há policiais suficientes para garantir que essa lei seja respeitada e há apenas câmeras para multar motoristas em alta velocidade. É muito difícil negar a lógica do executivo.

fiat_uno_crash_test_2011_1

Existem carros mais seguros à venda no Brasil do que um Fiat Uno. Quando foi testado pela Latin NCAP em 2011, ele conseguiu apenas 1 estrela em proteção adulta e 2 estrelas na proteção a crianças.

Volkswagen-up-2-airbags-crash_test_2014_1

O Volkswagen up!, testado em 2014, já com airbags frontais obrigatórios, alcançou 5 estrelas na proteção a adultos e 4 em proteção a crianças. Esta poderia ser uma comparação injusta, mas é a única possível. O Fiat Uno não foi testado novamente. Mas o fato é que, em 2014, o Uno foi o 4º modelo mais vendido no Brasil. O up! foi o 14º. Dutra está certo: o consumidor brasileiro não se importa por segurança. Se se importasse, será que haveria apenas 2 cadeiras Isofix à venda? Certamente não: haveria um mercado em expansão, atraindo mais competidores. Ironicamente, essa ideia é confirmada pelas boas vendas que o modelo de 1 estrela vendido pela FCA sempre teve. Especialmente porque os preços não são tão diferentes entre o Uno e o up!.

Isso provavelmente é algo que acontece em mais países. Mais frequentemente do que gostaríamos de admitir. Não há empresas más dispostas a matar seus clientes atuais ou potenciais (as crianças). Elas podem ser geridas por “contadores de feijões” insensíveis, com certeza, mas será que eles teriam sucesso se as pessoas dessem a devida importância ao dinheiro que gastam? A conclusão é que há consumidores muito pouco exigentes com um senso estúpido de prioridades. E infelizmente eles são maioria absoluta. Pense nisso da forma mais honesta e sincera que você puder e nos diga: você é um deles?

Gustavo Henrique Ruffo

I have been an automotive journalist since 1998 and have worked for many important Brazilian newspapers and magazines, such as the local edition of Car and Driver and Quatro Rodas, Brazilian's biggest car magazine. I have also worked for foreign websites, such as World Car Fans and won a few journalism prizes, among them three SAE Journalism Awards and the 2017 IAM RoadSmart Safety Award. I am the author of "The Traffic Cholesterol", a book about bad drivers that you can buy at Hotmart, Google Play, Amazon and Kobo.