A revolução do carro – Parte 2 – A propriedade mudará tão radicalmente que provavelmente vai desaparecer

Em nossa série de artigos “A revolução do carro“, já explicamos que os motores elétricos impulsionarão praticamente tudo por razões tecnológicas, técnicas e de eficiência. Mas há um aspecto desta revolução que não tem nada a ver com questões técnicas. Tem a ver com a sua maneira de usar um carro. Para isso, você pode alugar, pegar um emprestado ou comprar um. A última é a maneira preferida de quase todos os seres humanos que podem se dar ao luxo de ter um automóvel. O apelo de propriedade se baseia não apenas na conveniência, ou em contar com o carro sempre que se precisar dele, mas também como uma afirmação social. Se você estiver dirigindo uma máquina fantástica, você teve os meios para comprá-lo. Ainda que comprar um carro possa ser conveniente e gratificante,  também pode trazer uma série de outras despesas e aborrecimentos. Você paga muito dinheiro em algo que vai desvalorizar e eventualmente perder todo o valor residual. Isso porque estamos falando apenas sobre a aquisição do veículo. Há também o reabastecimento de combustível, seguro, manutenção… Em alguns países, devido aos impostos e outras taxas, ele se tornará um fardo, um que você terá de pagar para se livrar. Se não se tornar um item de colecionador, o automóvel certamente fará você perder muito dinheiro. Não nos interpretem mal: amamos carros. Amamos o que eles fazem, o que podemos fazer com eles e a liberdade que nos deram nos últimos 100 e poucos anos. No entanto, a propriedade é um hábito que está perto do fim para a maioria. Mas isso não significa que todos nos renderemos aos transportes públicos. O carro ainda estará por aí. A única diferença é que você não vai mais pagar para comprar um, mas simplesmente para usá-lo.

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Alguns de vocês não devem se lembrar, mas linhas telefônicas costumavam ser compradas. E cada linha podia custar tanto ou mais do que um carro, dependendo do país em que você vivia. Agora tudo que é preciso fazer é pagar uma taxa e ter tantas linhas de telefone quanto você precisar. Onde quer que você precisa delas. Como água ou energia elétrica nos países que conseguem oferecê-los a todos. Você paga respectivamente pela possibilidade de se comunicar, de se lavar ou lavar suas coisas e de carregar ou alimentar a seus equipamentos eletrônicos e eletrodomésticos. A ideia com carros é mais ou menos a mesma.

Hoje, você quer comprar um carro para poder se mover de forma independente. No futuro, quando você precisar se mover de forma independente, vai pagar só e exatamente por isso. Em outras palavras, o “provedor de mobilidade” fornecerá a você um automóvel para se mover. Carros deixarão de ser um objetivo e se tornarão um meio, um instrumento  “serviços de mobilidade”. Como o modem ou o roteador wi-fi que seu provedor de internet banda larga oferece quando se contrata seus serviços.

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A YOYO é o exemplo mais recente desta tendência. A empresa apresentou, há um mês, um aplicativo para smartphone que permite que você peça um carro sempre que tiver necessidade. Você diz a que horas e quando vai precisar de qualquer carro, de um compacto a um SUV, e um representante da YOYO, ou Agente, como a empresa os chama, traz o carro que você requisitou. Quando terminar de usá-lo, alguém virá buscá-lo. Nem é preciso de ter uma vaga de garagem, em casa ou onde quer que você decida ir. E você também não tem de se preocupar com abastecimento ou com seguro: estas despesas estão incluídas nas taxas que você paga. A empresa cobra uma taxa de adesão (US$ 99) e pelo quilômetro (ou milhas) rodado, dependendo do veículo que você escolher. O YOYO é o serviço de car-sharing (compartilhamento de veículos) mais conveniente já apresentado até hoje. Com carros autônomos, os Agentes serão rapidamente dispensados de suas funções e membros do YOYO passarão a receber carros que dirigem sozinhos. A qualquer momento e em qualquer lugar que se precisar deles.

A YOYO está atualmente em testes beta em San Francisco, mas a empresa diz que se estabelecerá em qualquer cidade dos EUA onde tiver pelo menos 1.000 pessoas inscritas. Tentamos entrar em contato com o fundador da empresa, Ro Arora, mas até agora não recebemos resposta. No caso de a YOYO nos dar retorno, atualizaremos este artigo.

CAR2GO NORTH AMERICA LLC MINNEAPOLIS

Outras empresas, como a Zipcar, exigem que os assinantes retirem seus carros em pontos definidos e que os levem de volta para o mesmo ponto ou para outros estacionamentos distribuidos pela cidade atendida. A Car2Go, uma empresa de car-sharing da Daimler, faz o mesmo. A Maven, da GM, vai no mesmo caminho. Há 2 coisas em que você reparar com relação às empresas que acabamos de mencionar.

Notou que muitas montadoras estão criando seus serviços de car-sharing? Além da Car2Go e da Maven, há também a Quicar (da Volkswagen, uma empresa que tem investido também na Gett e na Greenwheels), ReachNow (da BMW) e vamos logo ver mais delas se juntando a estes serviços. A verdade é que a maioria dos fabricantes tem receio sobre as perspectivas para seus negócios. Eles estão se proclamando como “empresas de mobilidade”, em vez de simplesmente fabricantes. Eles não querem ficar perdidos no meio da revolução. Como a Kodak quando a fotografia digital se popularizou.

Algumas empresas ainda estão considerando a ideia de usar modelos de car-sharing para retornar ou mesmo para entrar em mercados importantes pela primeira vez. Carlos Tavares, da PSA, disse em setembro pretende estabelecer uma operação de compartilhamento de carros nos EUA com uma empresa parceira de longa data, a Bolloré. Não está claro quais carros, e de quais marcas do grupo PSA (Peugeot, Citroën e DS), seriam usados neste serviço. Dependendo do quanto as pessoas gostem destes modelos, Tavares pode começar a vender modelos da PSA nos EUA novamente, algo que a empresa deixou de fazer em 1991. Neste caso, o car-sharing poderia levar de volta à propriedade tradicional de carros.

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Outro exemplo semelhante pode vir da Lynk&Co, uma nova marca de carros da Geely, a empresa chinesa que controla a Volvo. Não temos certeza sobre o que ela vai propor, mas este é o único texto que a empresa divulgou até agora, com a foto acima:

“ESTÁ PRONTO PARA NOVAS IDEIAS?

É tempo de contagem regressiva. Faltam só algumas semanas até que nos encontremos em Gotemburgo e em Berlim. Espero que você esteja pronto para 24 horas muito interessantes.

Você vai ter uma dica do design do novo carro na foto abaixo. Mas estamos apresentando mais do que um carro novo. Uma nova marca de carro e uma nova linha. E algumas ideias novas e radicais – diferentes de tudo o que você já viu antes na indústria automotiva.

Novas ideias, em uma nova marca, exigem um nome de peso.

Nós somos a LYNK&CO. E só começamos a construir nosso site. Venham nos ver no lynkco.com. Neste momento, ele é apenas um teaser, mas todo o conteúdo estará lá quando suspendermos o embargo para esta emocionante notícia às 00:00 CET em 20 de outubro.

Mais uma vez, estou ansioso para vê-lo em breve e acho que posso te prometer uma coisa: você não vai se decepcionar. O mundo mudou.

E a LYNK& O bem pode mudar o que o mundo entende por mobilidade.

Te vejo depois

Alain Visser

Visser é vice-presidente global de marketing e vendas da Geely. Ele provavelmente será o apresentador da nova marca. O movimento aqui pretende vencer as resistências contra carros chineses na Europa. E a empresa fará isso provavelmente não apenas começando do zero, com uma marca de carro totalmente inédita, mas também apresentando uma nova maneira de usar seus carros. Ainda estamos para ver o que seria essa nova maneira, mas não ficaríamos surpresos com algum tipo de compartilhamento de carro.

A segunda coisa a prestar atenção é que essa aposta pode não compensar devido a um incômodo tremendo: seu carro compartilhado não será estacionado em casa. Estará em outro lugar, provavelmente longe de onde você mora. Esta é uma das principais razões pela qual algumas pessoas nunca deverão desistir de ter um carro em favor de serviço de car-sharing. Considerando o universo dos proprietários de automóveis, quantos deles vivem perto desses pontos definidos para retirar ou deixar um carro compartilhado? Um número limitado, com certeza, o que torna o alcance destes serviços também limitado. Se você tivesse de deixar seu carro compartilhado longe de onde você mora, você consideraria usar este serviço? Você pegaria um táxi ou um ônibus para chegar a um carro disponível?

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Mesmo com essas limitações, a Zipcar, controlada pela locadora Avis Budget, afirmou recentemente ter retirado 413.514 carros das ruas, com seu 1 milhão de assinantes. A ideia é que os carros compartilhados são usados muito mais frequentemente do que um veículo regular. Não precisa haver um carro para cada associado. Vamos supor que você precise de um para ir trabalhar. Tão logo você o estacione, outra pessoa poderá pegá-lo e ir a outro lugar. E esse processo é contínuo. Enquanto seu carro estaria estacionado esperando você voltar, o veículo compartilhado teria servido outras pessoas. Como seu motor não esfriaria, ele seria usado perto de sua temperatura de trabalho ideal na maior parte do tempo. Isso representa menos emissões e também um veículo que é menos propenso a problemas mecânicos. É um belo discurso, mas a maioria de nós só quer ir pra casa. E ir ao trabalho com conforto. E voltar sem ter de esperar. O sistema de compartilhamento, a menos que nos mesmos termos propostos pela YOYO, provavelmente não vai prevalecer.

 

Ter um carro sem complicações

A YOYO não é a única empresa que pretende tornar conveniente não ter um carro. A Riversimple visa o mesmo, mas de uma maneira totalmente diferente. Não haverá nenhum compartilhamento. O carro que você receber será o carro que você vai usar pelo tempo que quiser usá-lo. Você vai estacioná-lo em casa ou no seu trabalho como você faria com seu próprio veículo. Ninguém mais vai usá-lo além de você enquanto o contrato estiver em vigor, o que pode lhe dar o sentimento de posse que tantos apreciam. E que se traduz em poder esquecer qualquer coisa no carro, ou deixá-la lá para quando você precisar dela, sem medo de não encontrá-la mais (pelo menos em países com uma razoável segurança pública). Ou de não encontrar o carro de novo, o que é uma possibilidade enorme quando se trata de car-sharing.

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Como nos outros “serviços de mobilidade”, a Riversimple cobrará uma taxa mensal e sobre as distâncias que você percorrer. Também cuidará da manutenção, do reabastecimento e do seguro. A diferença, além de usar o mesmo carro enquanto o contrato estiver em vigor, é que é a Riversimple que constrói o veículo. E ele é feito de uma maneira que coloca a lógica de fabricação de veículos de cabeça para baixo. Especialmente porque é essencial para o seu modelo de negócio, mas também porque faz sentido à beça. “Quanto mais econômico for o carro, menos a empresa terá de gastar no reabastecimento. Quanto mais confiável ele for, menos teremos de gastar na manutenção. Estamos construindo carros que vão durar pelo menos 20 anos, então vamos consumir menos recursos naturais. Quando você vende um carro que tem baixo consumo de combustível, a economia vai para o cliente. Quando nós não o vendemos e cuidamos de seu reabastecimento, a economia vem para nós”, diz Hugo Spowers, fundador da Riversimple.

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No modelo de negócio da Riversimple, vender o carro é um mau negócio. Além de empurrar uma fonte de renda para os clientes (a poupança no consumo de combustível e na manutenção), o modelo de grande escala de produção da indústria automobilística atual não lhe permitiria competir ou desenvolver sua tecnologia. Os modelos da Riversimple serão alimentados por pilha de combustível e contarão com o que a empresa chama de carro elétrico de rede, algo que explicamos melhor no artigo para o qual este link aponta. A ideia é continuar a melhorar ambas as tecnologias e aplicar as melhorias em seus carros atuais, não em novos modelos. Isso não é possível em qualquer modelo convencional contemporâneo a não ser no Tesla Model S, e apenas no que diz respeito ao software.

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Eletrodomésticos de transporte?

Carros não serão unicamente eletrodomésticos de transporte, mesmo que eles sejam algo parecido para a maioria das pessoas. As mesmas pessoas que nunca verificam a pressão dos pneus ou o nível do óleo do motor, que não executam a devida manutenção ou que ligam para qualquer aspecto do carro a não ser para o tanque de combustível, que às vezes esvazia… Todos esses caras querem algo que se mova por aí sem nunca quebrar, uma necessidade que ajuda a explicar por que as marcas com melhor reputação de confiabilidade são as que vendem mais hoje em dia. A maioria delas nem gosta de dirigir. Estas são o foco principal do novo modelo de uso do carro. E da extinção da propriedade.

Em certo sentido, isso será uma coisa boa. O padrão atual de consumo crescente de matéria-prima mais a fim de promover o crescimento econômico provavelmente deixará de existir. Não falaremos de reciclagem tão frequentemente como fazemos agora porque a obsolescência planejada não será mais necessária. As empresas não nos venderão produtos, mas serviços. E aquelas que oferecerem os melhores serviços, por meio dos melhores produtos e aos preços mais justos, continuará a ganhar dinheiro. Como eficiência será o principal objetivo, os motores elétricos terão incentivo ainda maior do que hoje (nenhuma empresa irá se dar ao luxo de queimar 60% do que gasta no reabastecimento dos veículos, como fazemos atualmente). E a maioria dos carros estará em muito melhor forma do que os que encontramos hoje em todas as ruas, ou seja, com pneus nos níveis recomendados de pressão, rodas corretamente alinhadas e balanceadas e assim por diante.

Para alguns poucos felizardos, incluindo a maioria dos nossos leitores, automóveis também são máquinas incrivelmente divertidas. Elas permitem que você teste suas habilidades de pilotagem em pistas de corrida. São peças incríveis de engenharia, alguns dos quais são tão encantadores que se tornaram clássicos instantâneos. Alguns são obras de arte e não perdem valor com o tempo, apenas o aumentam. E alguns outros são até divertidos de consertar. Como dizem os italianos, “Donne e motori, gioie e dolori” (mulheres e motores, alegria e dor). Quebrar é parte do pacote. Para as pessoas e carros que se encaixam nessa descrição, a propriedade muito provavelmente permanecerá a mesma, apenas com um status de passatempo. As pistas ainda estarão por aí, ainda que como clubes de golf, aos quais apenas alguns terão os meios para frequentar. Prepare-se para a mudança no caso de você ser um petrol head.

Leia os outros artigos de revolução de carro:

A revolução do carro – que você pode esperar do futuro em quatro rodas

Motores elétricos revolução – parte 1 – carro irá impulsionar (tudo e todos)

A revolução do carro – parte 2 – Propriedade mudará radicalmente provavelmente desaparecerá (este aqui)

Gustavo Henrique Ruffo

I have been an automotive journalist since 1998 and have worked for many important Brazilian newspapers and magazines, such as the local edition of Car and Driver and Quatro Rodas, Brazilian's biggest car magazine. I have also worked for foreign websites, such as World Car Fans and won a few journalism prizes, among them three SAE Journalism Awards and the 2017 IAM RoadSmart Safety Award. I am the author of "The Traffic Cholesterol", a book about bad drivers that you can buy at Hotmart, Google Play, Amazon and Kobo.