Lynk & CO é uma híbrida da atual indústria automotiva e da futura

Quando falamos em indústria automotiva, temos tanto empresas centenárias, como Mercedes-Benz e Aston Martin, quanto as mais novas, como Hyundai ou Geely. Ambos os grupos fabricam carros de uma forma muito semelhante desde sua invenção. Como já descrevemos em série de artigos “A revolução do carro“, carros são veículos autopropulsionados, equipados com quatro rodas, um volante, pedais e um motor de combustão interna. Mas podemos acrescentar a essa equação outro aspecto fundamental: carros são mercadorias, destinados a serem vendidos. E isto é o que uma nova empresa chamada Lynk & CO pretende abordar. Já a mencionamos antes da sua apresentação, na segunda parte de “A revolução do carro”, mas não sabíamos o que ela seria naquele momento. Agora (quase) sabemos: ela ainda vai vender seus carros, mas também dará aos clientes a opção de apenas usá-los, em uma espécie de modelo híbrido entre o que as novas e velhas fabricantes atualmente em atividade são e o que elas devem se tornar, como a Riversimple.

Neste curto vídeo, a Lynk e CO nos permite descobrir parte de sua estratégia futura. A partir de 01:30 em você ver que a empresa pretende oferecer “lojas centrais da marca, conectividade líder, entrega em domicílio, tecnologia inovadora, preço fixo, modelo de assinatura, oferta de produto simplificada, serviço de retirada e de entrega, vendas online, carros eletrificados e partilha de veículos”.

Antes de explicarmos cada uma dessas promessas, vale explicar o nome da empresa, que é propriedade da Geely e usa uma plataforma desenvolvida conjuntamente (pela Geely e Volvo) chamada CMA. Lynk se refere ao fato de que os carros serão profundamente dependentes de uma conexão de internet.

CO é uma referência a tudo o que a empresa diz estar relacionada: cooperação, colaboração, conectividade, comunidade. Todos com o prefixo latino Co, que é usado para indicar um complemento. O carro? Bem, ele não tem nem um nome. Chama-se “01”.

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A Lynk & CO já divulgou que números nomearão seus futuros veículos. 02, 03 e assim por diante, até que ela tenha uma gama completo. Isso é provavelmente o que se pode entender por “oferta de produto simplificada”. Considerando que a CMA significa Arquitetura Modular Compacta, o 01 será o modelo de entrada. Eles também poderiam oferecer um hatchback e um sedã, como a Volvo planeja fazer, mas a marca revelou um crossover antes de mais nada. Provavelmente ele será mais caro do que os outros modelos baseados na CMA, mas terá mais apelo no mercado de hoje.

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A nova empresa promete “carros eletrificados”, mas se contradiz em seu próprio site.

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“Sob o capô, você encontrará a próxima geração de motores convencionais, híbridos ou elétricos. Mais leves, mais limpos, mais eficientes.” Se os carros terão motores “convencionais”, a promessa de carros eletrificadas não fica de pé. Estes motores não são nem mesmo novos: são os Drive-E já utilizado pela Volvo. A única coisa teoricamente nova sobre eles é que a Lynk & CO terá um elemento de diagnóstico criado pela Ericsson que provavelmente irá descartar a necessidade de manutenções regulares. Mas também não é nada de novo. A BMW já usa um sistema similar e o chama de CBS (Condition Based Service, ou manutenção baseada em condições).

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Este equipamento de telemetria da Ericsson é apenas uma parte da “conectividade líder” que a Lynk & CO afirma irá oferecer. Seus carros serão também conectados à internet em todos os momentos. E não porque o hipster que não gosta de dirigir precise assistir ao novo episódio de The Walking Dead enquanto dirige até o trabalho. Na verdade, eles precisam dessa conexão a fim de oferecer um dos serviços principais da Lynk & CO: a partilha de carro, ou car sharing, como o serviço é mais conhecido.

Na tela de 10,1 polegadas no console central, você pode estacionar o seu carro e dizer que não precisará dele até as 18h, por exemplo. Nesse meio tempo, qualquer assinante da Lynk & CO pode pegar o carro e dirigi-lo. Você tem avaliações do assinante e também do proprietário do carro a fim de supostamente tornar mais confortável tanto o ato de emprestar seu carro a um completo estranho quanto o de pegar algum emprestado. Algo que, segundo a empresa, é uma maneira de fazer dinheiro com o veículo em vez de desperdiçá-lo apenas em seu automóvel. Colocando a coisa toda de outra forma, é um Uber sem a necessidade de dirigir o veículo. Os assinantes pagariam uma taxa que seria suficiente para reabastecer o carro. Mas como ele voltaria para o ponto onde foi originalmente estacionado? E quem iria abastecê-lo? A Lynk & CO não explica.

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A empresa também pretende oferecer seus próprios carros para assinantes, sem que eles necessariamente sejam de algum comprador. Serão oferecidos aos clientes a opção de compra tradicional, um plano de locação e também o simples direito de conduzir os carros. Esta última opção incluirá seguro e custos de manutenção. Você também poderá solicitar o carro, recebê-lo em casa, ou em qualquer outro lugar em que você precise, e pedir para um funcionário Lynk & CO vir retirá-lo depois do uso. Como a YOYO, com a diferença de que é a Lynk & CO que produz os carros que ela mesma usará neste serviço.

As perguntas que vale a pena fazer neste momento são: qual é o sentido de comprar um carro que você pode usar pagando apenas uma taxa mensal? Ou, no caso de decidir comprá-lo, você vai mesmo querer compartilhá-lo com alguém?

A Lynk & CO tem um monte de outras perguntas sem resposta para sanar além destas. Não temos nenhuma especificações técnicas do O1, por exemplo. Nem sobre o “preço fixo” dos serviços que a empresa planeja oferecer. Nem sobre qualquer outra coisa.

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Temos de dizer que a Geely seguiu uma estratégia sensata para começar as coisas. Criou uma empresa totalmente nova de carro para propor o novo modelo de negócio, para que eventuais danos sejam limitados à Lynk & CO, enquanto qualquer sucesso poderá ser compartilhado por toda a organização. Mas ela se baseia em formatos tradicionais: motor de combustão interna, carroceria estampada, vendas. Essa tentativa de ser uma híbrida entre uma fabricante comum e uma nova será muito complicada. A Lynk & CO terá os custos da primeira e as complicações de logística da segunda. E tentará conquistar um cliente que não tem vergonha de dizer algo como: “Não sei nada sobre carros. Nem quero. Eu tenho coisas melhores para fazer”. De verdade. Eles vão tentar vender ou alugar um carro para uma turma que provavelmente odeia carros e estaria muito melhor com alguém dirigindo para eles por aí. Que estaria perfeitamente confortável dentro de um ônibus ou de um trem desde que eles tenham Wi-Fi. Será como tentar fazer o Rick Martin se apaixonar pela Portia De Rossi. Ou o Clint Eastwood pelo Jack Nicholson. Não vai funcionar. Melhor seria se respeitássemos todos os modos de vida. Não tentar converter o Jay Leno em um defensor ferrenho do transporte público, por exemplo. Até agora, parece que é o que a Lynk & CO está tentando fazer. Esperamos que não seja o caso.

Gustavo Henrique Ruffo

Sou jornalista automotivo desde 1998 e trabalhei para alguns dos meios, especializados ou não, mais importantes do Brasil, como Folha de S.Paulo, Jornal do Carro, a finada Oficina Mecânica, Gazeta Mercantil, WebMotors, FlatOut, Car and Driver e Quatro Rodas. Também escrevi para meios estrangeiros, como o site World Car Fans, e ganhei alguns prêmios de jornalismo, da SAE, da AEA e o IAM RoadSmart Safety Award 2017, pelo The Guild of Motoring Writers. Também sou autor do livro "O Colesterol do Trânsito", sobre maus motoristas, que pode ser comprado como ebook no Hotmart, na Amazon e como cópia física no Clube de Autores.