EXCLUSIVO – Montagem dos cintos traseiros do Kwid os deixa cruzados; Renault nega falha

É incontestável que o Renault Kwid se tornou um sucesso de mercado. E que ele só começará a ser entregue aos consumidores que o compraram depois da pré-reserva por volta de dezembro, mas que a Renault anda fazendo das tripas coração para entregá-lo o mais rápido possível. Só que a pressa pode ter causado mais motivos para atraso, como mostram diversos Kwid inspecionados pelo MotorChase. Todos eles apresentam uma falha grave de montagem dos cintos traseiros. Talvez você não a tenha identificado pela foto acima. Por isso, fizemos mais uma série delas, que mostra bem onde está o problema.

Notou agora? O cinto central, abdominal, sai da parte externa do engate do cinto esquerdo e se ata a uma trava que fica do lado de fora do engate direito. Em outras palavras, ele só pode ser atado se cruzar os dois cintos de três pontos do modelo de entrada da Renault. Confira como são montados os cintos de trás.

Veja que os engates trazem um selo que indica a posição e a compatibilidade. O selo branco, com um C maiúsculo, é o central. O verde, com a inscrição RH, provavelmente de “right hand”, é o que foi instalado para o cinto de três pontas do lado direito. O laranja vem com as letras LH, de “left hand”, indicando que é o da esquerda. E o cinto enrolado é a outra ponta do central abdominal. O que devia ser central se encontra nas extremidades do banco. Ele só se encaixa no engate C. Os engates RH e LH podem ser ligados a qualquer uma das fivelas dos cintos de três pontos retráteis.

Olhando a foto acima, você pode achar que bastaria inverter os engates, mas não dá. Veja abaixo por quê.

Os engates são bem curtos. Além disso, ficam presos, cada um deles, a uma ponta de uma pequena chapa de aço.

O mesmo acontece com o engate esquerdo e com o cinto “central”.

Se as chapas tivessem a montagem invertida, o problema não existiria. Explicando melhor, a que traz o engate LH e o cinto deveria ser colocado do lado direito do carro. A que vem com o engate C e RH deveria estar na esquerda. Isso deixaria tanto o engate C quanto o cinto central onde eles deveriam estar desde o princípio: no centro.

Além do modelo que posou para as fotos do MotorChase, fomos a uma concessionária para verificar se o problema não era restrito a esta unidade. Segundo o pessoal da revenda, “isso é normal”, só que não é. E todos os demais Kwid que pudemos ver trazem o mesmo defeito de montagem.

Considerando que só se convoca recall para defeitos que ameacem a vida ou a integridade física dos ocupantes, a inversão do cinto poderia eventualmente se encaixar na descrição por dificultar a saída do carro em caso de acidente ou de incêndio, por exemplo. Só que a Renault pode não chamar uma ação de correção desta maneira. O que é certo é que os donos do carro terão de passar pelas concessionárias para que as chapas sejam trocadas de lugar. Assim como os adesivos RH e LH, que estão colocados de modo errado. Essa, aliás, pode ser a explicação para o erro de montagem.

Como são importados da Índia, os componentes devem ter vindo de lá com os adesivos trocados nas peças. A montagem na fábrica brasileira deve ter seguido essas indicações.

A Renault ainda não foi contactada, por termos descoberto o problema no último final de semana. Atualizaremos essa reportagem assim que tivermos resposta em relação ao erro de montagem.

ATUALIZAÇÃO – 12/09/2017, às 18h48

Recebemos a seguinte resposta oficial da fabricante: “Em resposta à sua consulta, a Renault afirma que não há nada de errado com os cintos de segurança traseiros do Kwid. O posicionamento foi definido de forma a proporcionar a melhor ergonomia para cada ocupante”. Veja as fotos desta reportagem e se lembre destas palavras sempre que for usar o cinto central do Kwid.

Gustavo Henrique Ruffo

Sou jornalista automotivo desde 1998 e trabalhei para alguns dos meios, especializados ou não, mais importantes do Brasil, como Folha de S.Paulo, Jornal do Carro, a finada Oficina Mecânica, Gazeta Mercantil, WebMotors, FlatOut, Car and Driver e Quatro Rodas. Também escrevi para meios estrangeiros, como o site World Car Fans, e ganhei alguns prêmios de jornalismo, da SAE, da AEA e o IAM RoadSmart Safety Award 2017, pelo The Guild of Motoring Writers. Também sou autor do livro "O Colesterol do Trânsito", sobre maus motoristas, que pode ser comprado como ebook no Hotmart, na Amazon e como cópia física no Clube de Autores.